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Como Portugal moldou a história do continente africano
Os portugueses foram os primeiros europeus a chegarem à África – e os últimos a saírem. Entenda o que aconteceu nesse período de mais de 500 anos.
Por Igor Natusch
access_time11 nov 2019, 17h09 - Publicado em 17 maio 2019, 17h11chat_bubble_outlinemore_horiz

 (Estúdio Nono/Superinteressante)

Dizer que a presença de Portugal na África foi duradoura é um eufemismo. No longo processo de exploração das riquezas do continente pelos europeus, os lusitanos não apenas abriram a porta, na primeira metade do século 15, durante as Grandes Navegações, como a mantiveram escancarada pelo máximo de tempo possível – e só foram fechá–la nos anos 1970, muito depois dos demais países do Velho Continente. Uma trajetória que teve efeitos profundos sobre a África, dilapidando recursos naturais e espalhando filhos e filhas do continente pelo mundo, dentro de navios superlotados de escravos.

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query_builder29 mar 2019 - 18h03
Desde o Império Romano, os europeus tinham contato direto com o norte africano, algo que ia muito além do domínio sobre o Egito e dos flertes com Cleópatra. A expansão islâmica a partir do século 7, porém, praticamente cortou o contato europeu com o norte da África e com as rotas trans–saarianas, que conduzem a região ao sul do deserto do Saara. Na Península Ibérica, a reação dos cristãos europeus à presença dos mouros, oriundos de onde hoje ficam Marrocos e Argélia, só foi ganhar força a partir do século 11 – conduzida primeiro pelo reino de Castela, hoje território espanhol, depois pela coroa portuguesa.

Ou seja, se você não tivesse um acordo com os muçulmanos, precisava partir para a briga para entrar na África – ou achar um jeito de dar um drible neles. E Portugal fez, basicamente, as duas coisas. Com a conquista de Ceuta, ocorrida em 1415 sob comando do rei João 1o, o reino português estabeleceu sua primeira posse em solo africano e passou a ter relativo controle sobre o Estreito de Gibraltar, o canal que separa Espanha e o norte da África (hoje, Marrocos), na entada do Mar Mediterrâneo. Além de fortalecer sua posição no litoral marroquino, isso tornou real o sonho de explorar o sul do Atlântico – uma vantagem importante para Portugal no cenário comercial da época.

A ideia de contornar a África para chegar à Ásia não era exatamente inédita. O grego Heródoto, considerado o pai da história, relata que teriam sido navegadores fenícios os primeiros a fazer a viagem, a partir de 600 a.C. A estratégia portuguesa, porém, tinha uma outra lógica, estritamente de negócios. Embora mais penosa, a trilha pela costa africana era o trajeto possível à Coroa, já que os mercadores de Gênova e Veneza, grandes adversários comerciais, se entendiam bem demais com os islâmicos, o que fechava as rotas asiáticas aos portugueses.

Além da briga pelas Índias, a criação de entrepostos no Atlântico (as chamadas “feitorias”) era a chance de passar a rasteira nos genoveses e disputar o acesso a produtos de grande valor, em especial o cobiçado ouro africano. “Era sabido que o ouro que surgia na Península Ibérica islâmica vinha do interior da África. Os portugueses tinham certeza de que havia ouro em algum lugar e queriam conquistar essas cidades”, explica Valdemir Zamparoni, professor de história da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

O avanço português foi deixando rastros – muitos deles, visíveis até hoje. A exploração dos rios entre as bacias do Senegal e Níger, por exemplo, é a origem do nome Lagos, que batiza a capital da Nigéria e é referência direta à cidade homônima em solo português.

Foram os lusitanos quem involuntariamente batizaram Camarões, em referência à grande quantidade de crustáceos na foz do Rio Wouri, onde chegaram em 1472. E os desembarques nos futuros territórios de Guiné–Bissau (1446) e Cabo Verde (1460) são eventos decisivos para a história dessas regiões e de todo o continente.

Em meio à busca por metais e especiarias, os escravos também faziam parte do comércio português. Ocorrida em 1441, a expedição de Nuno Tristão ao Cabo Branco, na costa da atual Mauritânia, não foi apenas o primeiro grande avanço rumo ao sul do continente, mas foi também a primeira remessa de escravos africanos para Portugal. No caso, um pequeno grupo de pescadores, atacados e feitos prisioneiros. Porém, embora fosse desde sempre um negócio lucrativo, a captura de escravos não era, ao menos no começo, a essência da empreitada.

A importância desse comércio mudou a partir do estabelecimento dos engenhos de açúcar na Madeira e em outras ilhas da costa atlântica – modelo que, depois, viraria uma vantajosa fonte de renda também nas Américas.

Para abastecer a demanda crescente por trabalhadores forçados, os portugueses estabeleceram acordos com líderes locais. O mais comum era que os vendidos fossem prisioneiros de batalhas conta povos rivais, embora vítimas de sequestros e criminosos da própria comunidade também virassem moeda de troca de vez em quando.

O que não quer dizer, é claro, que os portugueses não tenham tentado obter escravos à força. Tentaram, e bastante. O problema é que enfrentar os povos locais não era nada fácil. Textos históricos como a Crônica do Felicíssimo Rei Dom Manuel, de Damião de Góis, demonstram que, desde o século 16, era comum a presença de batelões portugueses onde hoje é costa da África do Sul, tentando atacar aldeias próximas ao mar para fazer prisioneiros. Resultado: na maioria das vezes, os europeus tomaram uma surra.

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query_builder11 fev 2019 - 16h02
Após o sucesso em cruzar o Cabo das Tormentas (hoje Cabo da Boa Esperança), no extremo sul da África, com Bartolomeu Dias, em 1488, o alcance português ganhou contornos mais definitivos, especialmente nos territórios de Angola e Moçambique.

Com o fim do tráfico de escravos na segunda metade do século 19, a lógica europeia na África mudou. Até então, as expedições dependiam do pagamento de impostos e da tolerância de líderes africanos.

A perda do Brasil, disparada pela declaração de independência de 1822, fez com que Portugal olhasse com mais atenção para as colônias africanas. Já em 1834, o político Sá da Bandeira apresentou um projeto de desenvolvimento para o continente, que previa a abolição do tráfico negreiro e o uso dos habitantes na agricultura das próprias regiões onde residiam. Mas a resistência dos mercadores de escravos demorou a ser vencida e só a partir do final do século 19 a ideia começou a prosperar.

Até aquela época, Angola e Moçambique serviam a funções distintas: a primeira fornecia escravos, enquanto a segunda era pouco mais que uma sequência de entrepostos no contato com a Índia Portuguesa. No começo do século 20, a instabilidade política e econômica em Portugal era enorme, e a ordem passou a ser incentivar a ida de portugueses à África. Mas a ideia não empolgava muito, com cerca de mil a 2 mil portugueses indo morar no continente africano por ano – quase nada comparado às dezenas de milhares que embarcavam de Portugal, na mesma época, em direção ao Brasil.

A partir do golpe que instaurou o Estado Novo em Portugal, regime autoritário que vigorou de 1933 até 1974, as subdesenvolvidas e subpovoadas colônias africanas passam a ser vistas como um complemento ao fornecimento de produtos para Portugal. Nos anos 1950, António Salazar vai na contramão das demais nações colonizadoras: enquanto Inglaterra e França planejavam sua retirada, Lisboa apresentava os territórios africanos como orgulho nacional e bancava terras, gado e sementes para quem quisesse tentar a sorte lá.

Quando estouraram as guerras de independência, havia algo em torno de 200 mil portugueses em Angola e 80 mil em Moçambique. A maioria levava uma vida confortável, enquanto os negros viviam nas periferias, deixando a “cidade do asfalto” quase toda para os brancos. Raros eram os que chegavam a estudar em escolas, que dirá subir na vida. E embora a convivência fosse bem menos tensa do que no Apartheid da África do Sul, os castigos físicos eram comuns até pelo menos o começo da década de 1970. Com a revolução de 1974, os contrários à continuidade da colonização assumiram o poder no país. A partir daí, finalmente, os portugueses começaram a deixar a África.

Nossa África
Os diferentes povos cujo sangue está no DNA do brasileiro.

Moçambique

Nhanjas


 (Rodrigo Bastos Didier/Superinteressante)

É um subgrupo dos povos de origem Bantu, que se espalham pela África sul-equatorial. Foram maciçamente trazidos ao Brasil a partir dos territórios de Moçambique e Angola. Por aqui, os bantu criaram a capoeira e influenciaram a música, com berimbaus e cuícas. Mas a principal contribuição foi linguística, uma das bases do nosso português. Se chamamos nosso irmão menor de “caçula” em vez de “benjamim”, como em Portugal, é por influência deles.

Angola

Ovimbundos


 (Rodrigo Bastos Didier/Superinteressante)

Um dos subgrupos Bantu, foram trazidos ao Brasil a partir de Angola – eles hoje ainda se concentram somente nesta região e representam 37% da população do país. É um dos grupos étnicos mais homogêneos, vivendo até hoje em aldeias onde criam gado e cultivam plantações. Mantêm sua cultura própria (as mulheres usam roupas multicoloridas), apesar das influências externas. No século 18, constituíram reinos importantes, que intermediavam o comércio de escravos.

Benim

Iorubás


 (Rodrigo Bastos Didier/Superinteressante)

Também chamados de nagôs, são originários da região que hoje engloba o sul da Nigéria, o Togo e o Benim, principalmente. O animismo iorubá – a visão de que animais e plantas e entidades não humanas têm essência espiritual – é um dos pilares do candomblé, baseado no culto a orixás, como Iemanjá, Xangô e Ogum. Para evitar a fúria cristã, os nagôs batizaram suas divindades com nomes de santos católicos, como São Jorge. Mais tarde, essas tradições ajudariam a moldar a umbanda brasileira.

Brasil no meio do caminho
Por conta da escravidão, o território brasileiro também começou a ser povoado pelos africanos. Vindos de diferentes regiões e com vivências diversas, eles traziam consigo uma ampla gama de culturas. Os portugueses, é verdade, fizeram grande esforço para “branqueá-los”, forçando a conversão ao catolicismo e a adoção de língua e nomes portugueses, além de castigar os que se recusavam a abandonar os costumes nativos. Mas os escravizados não cederam. Além da resistência física, com os quilombos, emboscadas e motins, os negros que forjaram o nosso país foram mantendo viva a memória de suas raízes.

Foi nesse Brasil colonial cada vez mais impregnado pelo imaginário africano que surgiram religiões como a umbanda e o candomblé, seguidas hoje por milhões de brasileiros. Se você curte uma roda de samba, um chorinho ou mesmo uma bossa nova, é porque tradições musicais de origem africana, em especial o lundu, deram tom e ritmo ao que viria depois. Juntando dança e arte marcial, a capoeira brasileira chegou a ser perseguida pelos portugueses e hoje é patrimônio cultural da humanidade. A feijoada, o vatapá e o azeite de dendê não existiriam no Brasil. E várias palavras foram incorporadas ao nosso vocabulário, como moleque, caçula e farofa, por exemplo.

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Por que a África foi o continente ideal para gerar a humanidade
Os fatores que explicam por que o continente foi tão maternal com nossos ancestrais, que deixaram seus rastros espalhados pelo continente.
Por Sílvia Lisboa
access_time24 jun 2019, 17h52 - Publicado em 24 maio 2019, 16h57chat_bubble_outlinemore_horiz

 (Estúdio Nono/Superinteressante)

Charles Darwin suspeitava que o homem havia nascido na África. Na página 191 de seu livro The Descent of Men (A descendência do homem), publicado em 1871, o cientista que criou a teoria da evolução das espécies escreveu sobre o que, até então, era apenas uma hipótese inédita. “É mais provável que nossos progenitores tenham vivido no continente africano do que em outro lugar”, inferiu. A suspeita do naturalista inglês residia no fato de que os gorilas e chimpanzés, parentes mais próximos do Homo sapiens, eram africanos.

Mas, para muitos, era difícil engolir que nossos antepassados tinham uma aparência de macaco e um cérebro do tamanho de uma tangerina. Para “provar” essa tese, em 1912, o inglês Charles Dawson colou uma mandíbula de orangotango num crânio, fez tratamentos para a ossada parecer envelhecida e apresentou o achado como a prova de que nossa origem era a Europa. A farsa só foi desmascarada 40 anos depois, mas, enquanto o golpe de Dawson seguia iludindo muitos, provas de que o berço humano era a África apareciam, incendiando a polêmica.

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query_builder17 maio 2019 - 17h05
Em 1924, a hipótese de Darwin ganhou força: o fóssil de uma criança que caíra num buraco após ser atacada por uma águia, onde ficou enterrada por 3 milhões de anos, foi descoberto. Seu crânio, encontrado em Taung, uma pequena província no noroeste da África do Sul, chegou às mãos do anatomista australiano Raymond Dart, então professor da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, e mudou a história da evolução humana.

Dart correu para escrever sobre seu achado, que batizou de Australopithecus africanus. No início, os mais proeminentes cientistas torceram o nariz para a revelação. Mas o paleontólogo escocês Robert Broom decidiu persistir no caminho de Darwin e Dart e se enfurnou por dez anos, entre 1930 e 1940, nas cavernas de calcário da África do Sul atrás de novos bebês de Taung. Encontrou dezenas de crânios e mandíbulas semelhantes à criança morta pela águia, batizados Australopithecus com diferentes sobrenomes: sediba, robustus etc. As investigações das ossadas descobertas por Dart e Broom mostraram que esses primeiros hominídeos, de até 3 milhões de anos, eram capazes de trabalhar com pedra e osso, construir cabanas e viver em grupos, algo decisivo para nossa espécie ter chegado até aqui.

Com as descobertas em série, o bebê de Taung acabou sendo considerado a primeira grande evidência de que a África é o berço da nossa espécie. Mas viriam muitas outras. Fósseis pré-humanos e humanos foram encontrados na Tanzânia e no Quênia, ambos na África Oriental, e mais recentemente no Marrocos, no Noroeste.

Uma família não muito unida
É impossível cravar com 100% de certeza quem deu origem a quem. A maior aproximação que temos até o momento é esta árvore, com os ancestrais e descendentes mais prováveis de cada espécie.


 (Estúdio Nono/Superinteressante)

Sahelanthropus Tchadensis: não conhecemos nosso ancestral comum com os chimpanzés. Mas já sabemos como eram seus primeiros descendentes, como este hominídeo, de 7 milhões de anos, uma mistura de traços símios com humanos.
Ardipithecus Ramidus: este parente de 4,5 milhões de anos tem adaptações na pélvis que indicam tanto a capacidade para caminhar sobre duas patas como para escalar árvores – é a grande característica dos ardipitecos, esse antigo ramo da linhagem humana.
Australopithecus Afarensis: houve várias espécies de australopitecos, mas a linhagem que deu origem ao gênero Homo provavelmente foi a afarensis, que sobreviveu por 1 milhão de anos, adaptando-se a diferentes condições ambientais.
Neandertais: são nossos primos e dos denisovanos. Foram feitos para suportar o frio europeu, mas também viviam em áreas mais quentes, como o Oriente Médio. Foi lá, há 60 mil anos, que sapiens e neandertais começaram a ter filhos híbridos.
Sapiens Arcaico: os fósseis do Marrocos mostram que o sapiens é mais antigo do que achávamos. E mais: que algumas variedades mais arcaicas reproduziram-se entre si na África antes de a espécie se consolidar na forma do sapiens moderno.
O homem nasceu na África porque o continente oferecia (e continua oferecendo) uma diversidade de ambientes propícios para a sobrevivência de primatas. Ao contrário de outras regiões do planeta, onde o clima passou por eras glaciais que dificultaram a vida, as oscilações climáticas da África não foram tão radicais. O continente tem paisagens de todo tipo: planícies, florestas, savanas, montanhas, desertos, lagos, rios e praias, uma exuberância de ecossistemas que fez florescer uma biodiversidade impressionante.

Flora e faunas abundantes significam alimento de sobra, e foi por essa razão que a África também foi o berço de outros grandes animais – leões, elefantes, rinocerontes. As opções de habitat e comida facilitaram a perpetuação dessas grandes espécies, que surgem apenas em cadeias alimentares complexas. Leões, elefantes e gorilas continuam vivos hoje na África porque seus antepassados tiveram opções para se adaptar diante das novas circunstâncias que foram surgindo ao longo de milênios – como novos predadores e mudanças climáticas que alteravam a oferta de alimentos.

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query_builder29 mar 2019 - 18h03
O sucesso dos humanos na África também tem uma dose de acaso. Foi lá que surgiram as inesperadas mutações genéticas que permitiram aos primatas de milhões de anos atrás criar ferramentas complexas – e elas poderiam ter brotado em primatas de qualquer canto do globo. Se os genes mutantes tivessem surgido em outros continentes, os humanos teriam sobrevivido à natureza? É possível, mas a África oferecia abundância de condições de sobrevivência e facilitou a perpetuação do novo DNA.

Os elos perdidos

Uma parte fundamental desse quebra-cabeça evolutivo surgiu em 1974, na Etiópia. Em novembro, quando o último imperador etíope havia sido recém-deposto, o paleoantropólogo americano Don Johanson fazia parte de uma equipe à caça de ossos de hominídeos, alheios à instabilidade política do país.

Junto com um colega, o ainda estudante Tom Gray, Johanson resolveu checar uma parte do deserto que já havia sido explorada pelos arqueólogos. Foi ali que ele achou um ossinho de cotovelo que o levou a encontrar vários outros fragmentos de um hominídeo. No acampamento, quando examinavam o esqueleto, identificaram que se tratava de uma espécie do sexo feminino. No rádio ao lado, tocava a canção Lucy in the Sky with Diamonds, dos Beatles. Estava batizada a descoberta.

Lucy, o fóssil mais famoso do mundo, viveu há 3,2 milhões de anos e faz parte de uma espécie, o Australopithecus afarensis, que antecedeu um novo tipo de animal na Terra: os humanos.

Lucy caminhava. Essa mutação genética liberou as mãos dos primatas da tarefa de se apoiar no chão para se locomover e facilitou a coleta de alimentos e o deslocamento pelo rico ecossistema da África. Com as mãos livres, as lucys de então começaram a criar ferramentas de pedra.

A nova postura também reduziu o quadril das fêmeas, e o partos começaram a ser mais prematuros para permitir que os bebês passassem pelo novo e estreito canal vaginal. Essas crianças eram mais indefesas, semelhantes aos bebês que nascem nas maternidades de hoje: dependem dos pais para tudo nos primeiros anos.

A novidade favoreceu quem construía laços sociais para se ajudar no cuidado da prole e buscar comida. Cérebros capazes de lidar com a circunstância complexa de 3 milhões de anos atrás (se proteger de predadores, caçar, coletar, fazer novas ferramentas e cooperar) levaram seus genes adiante. Os cérebros, não por acaso, cresceram.

Quinhentos mil anos depois, essas pressões já haviam criado um novo tipo de animal, o Homo habilis, a mais antiga espécie do gênero Homo, o nosso. Esse humano começou a ser descoberto em 1960 – mais uma vez na África. Naquele ano, o paleoantropólogo queniano Louis Leakey descobriu restos de crânio e de uma mão na Garganta de Olduvai, na Tanzânia. Eram ossos de 1,8 milhão de anos que apresentavam quatro características fundamentais: cérebro grande, dentes caninos, locomoção em duas pernas e capacidade de fabricar ferramentas de pedra lascada.

Hoje, só existe Homo sapiens no mundo. Mas diversas espécies de humanos surgiram e conviveram na África. Alguns hominídeos deixaram o continente por onde hoje é o Egito e seguiram caminho via Oriente Médio até a Europa e a Ásia. Lá, novas espécies de humanos surgiram, como os neandertais, na Europa.

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query_builder11 fev 2019 - 16h02
Por décadas, cientistas acreditavam que os sapiens teriam nascido na costa leste da África, banhada pelo Oceano Índico, principalmente na Etiópia, há 200 mil anos. Mas uma pesquisa publicada em 2017 mudou mais uma vez a nossa história. Cientistas do Instituto Max Planck, da Alemanha, e do Instituto Nacional de Ciências da Arqueologia e do Patrimônio, no Marrocos, analisaram fósseis e artefatos de pedra encontrados no sítio de Jebel Irhoud, na costa oeste do país norte-africano. Lá, a 5 mil quilômetros da Etiópia, onde a África é banhada pelo Atlântico e o Mediterrâneo, os pesquisadores encontraram provas da presença de sapiens há 300 mil anos.

A descoberta indica que colonizamos diversos cantos da África antes de perambular pelo planeta. Além disso, os achados mostram que temos 100 mil anos a mais do que o estimado até então. A colonização até o Marrocos teria ocorrido porque a região era mais úmida (e menos desértica) do que hoje – mais uma prova de que a África foi um berço generoso.

Há 70 mil anos, os sapiens começaram a desenvolver cultura e linguagem sofisticada. Nós convivíamos com pelo menos cinco outras espécies de humanos, mas a capacidade de imaginação dos sapiens fez com que nossas tribos sobrevivessem aos milênios, enquanto nossos parentes neandertais e erectus sucumbiram (ou foram eliminados pelo sapiens). Cinquenta mil anos mais tarde, já havíamos dominado a agricultura e criado civilizações. Algumas delas, na própria África.


 (Estúdio Nono/Superinteressante)

Habilis
1,5 m / 55 kg

Descendente dos australopitecos e primeiro construtor de ferramentas, inaugurou o gênero Homo. É a transição entre ancestrais simiescos e o erectus.

Australopitecos sediba
1,3 m / 30 kg

O sediba é um dos australopitecos mais recentes – viveu um milhão de anos depois do afarensis, nosso mais provável ancestral direto.

Boisei
1,4 m / 65 kg

É mais um descendente extinto dos australopitecos. Só que não faz parte do grupo que deu origem ao Homo. Meio humano, meio “gorila”.E

Erectus
1,7 m / 65 kg

Cérebro maior, introdutor dos machados de pedra e do controle do fogo, foi o primeiro da nossa linhagem a sair da África.


 (Estúdio Nono/Superinteressante)

Floresiensis
1,0 m / 25 kg

Mamíferos que passam gerações em ilhas tendem a diminuir de tamanho, para se adaptar à escassez. Foi o que aconteceu com um grupo erectus na ilha de Flores, na Indonésia.

Naledi
1,55 m / 50 kg

Sua anatomia lembra a do habilis. É provavelmente um hominídeo primitivo que sobreviveu à extinção por mais tempo que a média.

Heidelbergensis
1,75 m / 60 kg

Os que migraram para a Europa deram origem aos neandertais; na Ásia, aos denisovanos; os que ficaram, ao sapiens.

Neandertal
1,50 m / 70 kg

Produzia ótimas ferramentas e roupas. O que eles não contavam mesmo era com o pensamento abstrato, exclusivo dos sapiens.

Denisovano
1,6 m / 80 kg

Ninguém ousou cravar um nome científico porque conhecemos apenas seu DNA. Seus genes mostram que ele era parente mais próximo do neandertal do que nosso.

Sapiens
1,75 m / 70 kg

Somos nós: pensamento abstrato sofisticado e relações sociais complexas. O primeiro da linhagem a ocupar todos os continentes.

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Islamismo (2) - O Império Árabe
Érica Turci

Islamismo (1) O monoteísmo entre os árabes
Bio de Maomé
Maomé unificou as tribos árabes sob um único Estado baseado na religião islâmica e se tornou o primeiro chefe político e líder religioso da comunidade muçulmana (a ummah). Desde então, para os árabes, a política e a religião estão interligadas: para um muçulmano ser um bom cidadão deve seguir as palavras sagradas de seu profeta Maomé.

Quando Maomé faleceu, em 632, os árabes não sabiam como a ummah deveria se organizar sem a liderança do profeta, sequer sabiam quem seria seu sucessor. Os árabes não conheciam o principio de sucessão hereditária, já que, em suas tribos, os líderes eram eleitos. Além disso, os filhos homens de Maomé tinham morrido quando ainda eram crianças.

Alguns muçulmanos chegaram a propor que o sucessor (califa) deveria ser Ali ibn Abi Talib, que era primo do profeta e, também, era casado com Fátima, uma das filhas de Maomé. No entanto, a ummah escolheu um dos sogros de Maomé, Abu Bakr, como califa, já que ele tinha sido um dos primeiros a se converter ao Islã.

Durante o curto governo de Abu Bakr (632-634), diversas tribos buscaram retornar à sua independência tradicional. Então, Abu Bakr se dedicou à tarefa de reconquistar as tribos através de guerras que acabaram por ultrapassar o próprio território dos árabes.

Por essa época, dois grandes impérios cercavam a península Arábica: o Persa e o Bizantino, mas tanto um quanto o outro estavam enfraquecidos, depois de décadas de batalhas. Abu Bakr, então, iniciou a conversão dos árabes que viviam dentro das fronteiras desses impérios.

Umar ibn al-Kattab, ou simplesmente Omar , também um dos primeiros seguidores de Maomé, foi indicado por Abu Bakr como segundo califa e governou entre 634 e 644. Omar foi responsável pela expansão árabe-muçulmana, conquistando a Síria, a Palestina, o Egito e parte da Pérsia.

Omar foi sucedido por Uthman ibn Affan (644-656) e foi sob o governo desse califa que o texto oficial do Corão foi confeccionado e as conquistas árabes ampliadas pelo norte da África e pela Ásia Menor, além de a Pérsia ter sido definitivamente dominada.

Com as guerras de conquista, os califas puderam unificar ainda mais os árabes, pois canalizaram a sua cultura bélica e as razias (saques) para fora do Estado Árabe. O ideal que norteou essas conquistas é chamado de jihad, ou seja, o “esforço”, a “perseverança” dos muçulmanos na palavra de Maomé, e a necessidade de espalhá-la pelo mundo, mesmo que através da guerra.

De maneira geral, os povos conquistados aceitaram o domínio árabe, já que passaram a ser muito menos explorados do que eram na época do domínio persa e bizantino, e poderiam manter suas culturas e formas de vida tradicionais. Os cristãos e os judeus (considerados “Povos do Livro” e fiéis ao mesmo Deus) recebiam tratamento especial.

A princípio, os árabes não interferiram na forma administrativa dos povos dominados, somente os obrigavam a pegar impostos. Nem mesmo a conversão ao Islã era incentivada, pois isso transformaria o convertido em um membro da ummah, o qual não poderia ser excessivamente tributado, com uma consequente redução dos rendimentos dos árabes.

Apesar da resistência árabe em aceitar a conversão, isso acabou ocorrendo, tanto pela força da guerra, quanto pela força da palavra sagrada do profeta, ou até mesmo porque o novo convertido tinha interesse em se livrar dos inúmeros impostos cobrados. Assim, a partir desse momento, ser muçulmano (“fiel” ao islã) deixou de significar ser árabe. Hoje em dia, por exemplo, europeus, norte-americanos e mesmo brasileiros se convertem ao islamismo. De qualquer modo, a língua árabe acabou sendo adotada pela maioria dos novos muçulmanos do passado - os persas, por exemplo -, já que o Corão é um livro para ser recitado no original, pois representa a palavra de Alá ditada nessa língua a Maomé.

Durante o califado de Uthman, a extensão territorial do Império dificultou a administração a partir da cidade de Medina, e a enorme riqueza conquistada gerou a corrupção entre as elites árabes. Diante dessa situação, o grupo que defendia Ali ibn Abi Talib, primo e genro de Maomé, como califa ganhou força. Uthman acabou sendo assassinado e Ali se tornou o quarto califa (656). Mas uma guerra civil estourou entre os muçulmanos, pois Ali foi acusado pelo assassinato de Uthman.

Da disputa entre os partidários de Ali e os partidários de Uthman, surgiram dois grupos políticos inimigos entre os muçulmanos:

- os xiitas (Shiah-i-Ali), os “partidários de Ali”, uma minoria muçulmana que defendia que somente familiares do profeta poderiam governar a ummah, pois acreditavam que o líder político deveria ser também um imã (guia espiritual).

- os sunitas: que se opunham aos xiitas, defendendo que Maomé já tinha completado toda a Revelação divina e que, portanto, não havia necessidade de um imã. O nome sunita vem de Sunna, conjunto de textos que tratam da vida e dos ditos do profeta.

Os xiitas não aceitaram (nem aceitam hoje) a Sunna como norteadora da vida política muçulmana. Uma guerra civil se alastrou e o conselho das tribos, composto pelos sheiks (lideres tribais), se dividiu entre as duas facções. Assim os ulemás, a elite de estudiosos do Corão e da tradição (hadith), foram convocados para julgar uma solução para o problema.

Propuseram a abdicação de Ali, mas ele não acatou essa decisão. Por causa disso muitos de seus partidários se afastaram dele e formaram um grupo dissidente, os kharijitas (“aqueles que partem”). Enquanto isso, Muawiya, sobrinho de Uthman, ganhava prestígio. Ali acabou sendo assassinado por um kharijita, em 661, e Muawiya foi aclamado o quinto califa.

Dinastia Omíada

Com Muawiya iniciou-se o período dinástico do império árabe-muçulmano, ou seja, os califas não seriam mais escolhidos pela ummah, pois a sucessão passaria a ser hereditária. A primeira dinastia foi a dos omíadas, uma poderosa família da tribo dos coraixitas de Meca, da qual Muawiya fazia parte. Ele transferiu a capital islâmica para Damasco, na Síria, uma cidade localizada na região central do império.

Vários grupos muçulmanos (principalmente os xiitas) não aceitaram o governo dinástico e se rebelaram. Quando Muawiya morreu (680), os xiitas passaram a defender que o sucessor deveria ser Hussein, filho de Ali e neto de Maomé, mas quem assumiu o califado foi Yazid, filho de Muawiya. E mais uma vez uma guerra civil estourou.

As tropas de Yazid massacraram os rebeldes na Batalha de Karbala (na Mesopotâmia, em 682). Hussein se tornou um mártir para os xiitas e até hoje o dia da morte de Hussein é lembrada por eles com a cerimônia da Ashura.

Os omíadas retomaram as guerras de conquista, anexando o norte da África e a península Ibérica (que nessa época estava sob domínio dos visigodos). Os muçulmanos tentaram penetrar na Europa, mas foram derrotados pelos francos na Batalha de Poitiers (na França, em 732). Enquanto isso, no oriente, o Paquistão e o norte da Índia caíram sob domínio muçulmano.

Esse vasto império exigiu que a elite árabe dominante se reorganizasse. A influência bizantina transformou a corte do califa: a riqueza, o luxo e o poder autocrático passaram a ser adotados pelos árabes. O mais importante órgão do governo, depois do califa, era o Shura, o conselho dos sheiks. Para o governo de cada província do império o califa nomeava um emir, como forma de centralizar o governo.

Ao mesmo tempo em que crescia o poder da elite árabe sunita ligada ao califa omíada, os muçulmanos de todo império se rebelavam e buscavam no texto sagrado (o Corão) argumentos que defendessemm a vida simples do profeta. Muitos muçulmanos passaram a apoiar o xiismo, como forma de defender sua autonomia inicial e se colocar contra a elite sunita (exemplo: os persas ou iranianos).Sem poder conter as diversas ondas de rebeliões dos muçulmanos não-árabes, os omíadas foram derrubados (750) e Muhammad ibn Alt ibn al-Abbas, parente de Maomé, se tornou o novo califa, iniciando a dinastia dos abássidas.

Abbas transferiu a capital para Bagdá (no atual Iraque), privilegiando assim os territórios orientais, os mais ricos do império. Nessa ocasião, os árabes já eram uma minoria entre todos os muçulmanos, então Abbas se cercou de uma elite composta por várias etnias e deu a todos os muçulmanos a condição de igualdade política e jurídica, ou seja, a ummah se tornou legalmente multiétnica.

Como Abbas era parente de Maomé, seu califado se revestiu de um caráter sagrado e, assim, foi aceito pelos xiitas, o que garantiu um período de paz e prosperidade dentro do império. O período abássida é considerado como a época de maior esplendor do império árabe-muçulmano. De todas as partes do império chegavam tributos e riquezas. O ouro vinha principalmente da África, a prata e pedras preciosas vinham do oriente, perolas chegavam do Golfo Pérsico. Os árabes eram comerciantes de escravos, provenientes tanto da África quanto da região do Cáucaso.  A indústria têxtil foi a que mais se desenvolveu: o linho egípcio, o algodão importado da Índia, a seda da Pérsia.

Caravanas de comércio cruzavam todo o império, chegando até a China. E inúmeras cidades muçulmanas se desenvolveram a partir do comércio. Entretanto, aos poucos o imenso território do império, composto por muçulmanos de diversas etnias, acabou se fragmentando, e o califa não conseguiu mais manter o governo centralizado em suas mãos. Em cada província, os emires (governadores), apoiados em seus exércitos, se proclamavam independentes.

A primeira província a desmembrar-se foi o Egito que, em 909, formou o Califado Fatimida. Depois, foi a vez do Emirado de Córdoba (em 929, na Espanha). Assim, a partir de meados do século X, com o enfraquecimento do poder central de Bagdá, em várias regiões, as elites locais passaram a governar, de fato, as províncias que ainda compunham o império. No entanto, o processo de esfacelamento seria irreversível. No século XIV, o que se chamou de império árabe já não existia mais. Convém lembrar que, apesar disso, a cultura islâmica se manteve nos territórios ocupados pelos árabes até os dias de hoje. Atualmente, esses diversos países mantêm uma unidade religiosa e cultural, o que nos permite falar na existência de uma civilização muçulmana.

Érica Turci é historiadora e professora de história formada pela USP.

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Um novo colonialismo?
Como os investimentos chineses estão mudando a vida e a geopolítica da África no século 21.
Por Maurício Brum
access_time 8 jul 2019, 16h36 - Publicado em 5 jul 2019, 16h35
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 (Anderson Faria/Superinteressante)

Em 11 de setembro de 2018, após duas décadas de conflitos, Eritreia e Etiópia finalmente reabriram a fronteira que as divide. Foi um dia de alívio: uma guerra entre os dois países estourou em 1998 e, desde então, nenhum acordo havia sido firmado a respeito das disputas territoriais que motivaram o combate. “É maravilhoso. Eu vim aqui para encontrar parentes que eu não via há 20 anos”, celebrava um etíope ouvido pela BBC na cidade fronteiriça de Zalambessa. Como ele, milhares de pessoas se uniram para celebrar a paz nos locais próximos à divisa. A festa generalizada em dois dos países mais pobres do mundo ecoou também em um dos mais ricos: poucos tinham tanto em jogo quanto a China, que vem investindo pesado na África desde a virada do século e só perderia com a continuidade da guerra.

Muitos analistas sugeriram que o sofrido processo de paz só conseguiu chegar a uma resolução – que até alguns anos atrás parecia improvável – graças à influência chinesa. A Etiópia é particularmente importante nesse cenário. Desde o ano 2000, o país esteve entre os africanos que mais receberam empréstimos da China no continente, mais que um décimo do total. Cerca de US$ 12 bilhões repassados pelo governo de Xi Jinping ajudaram a financiar a construção e a reforma de grandes projetos que melhoraram as condições de vida na região e geraram milhares de empregos – estradas, ferrovias, barragens e fábricas. Com tanto investimento, a Etiópia ganhou o apelido de “China da África” – não só pela presença cada vez maior de empresários orientais no país, mas também pelo seu rápido crescimento econômico. Na última década, o PIB etíope aumentou uma média de 10% ao ano, e a previsão é que continue sendo o que mais rapidamente cresce no mundo.

O interesse chinês no continente não é novidade. Ainda nos anos 1960, Mao Tsé-Tung manteve ótimas relações com alguns dos mais proeminentes líderes africanos que lutavam contra a dominação colonial. Em plena Guerra Fria, essa aproximação era também uma maneira de garantir que as novas nações independentes não saíssem da esfera de influência do bloco socialista. O principal projeto dessa época foi a ferrovia Tazara, inaugurada em 1976, que, ao longo de quase 2 mil quilômetros, ligava as minas de cobre no interior da Zâmbia ao porto de Dar Es Salaam, na Tanzânia – foi a primeira grande obra pan-africana dedicada ao transporte terrestre.

Quatro décadas depois, a linha hoje está decrépita e só passam nela dois trens por semana, mas a própria China promete ajudar a reformá-la, colocando até um trem-bala em cima – o tempo total de viagem, que hoje leva dois dias em condições normais, poderia cair para apenas dez horas. Os chineses também falam em conectar a rede existente aos vizinhos Uganda, Ruanda e Burundi, países sem litoral que ganhariam acesso fácil aos portos do leste africano.


Pequim está de olho nos recursos do continente e em expandir mercados para seus produtos. O valor total do comércio entre a China e a África cresceu exponencialmente, saltando de US$ 10 bilhões em 2000 para US$ 220 bilhões em 2014. Ainda mais importante do que isso, porém, é a mudança na maneira como essa relação econômica se dá. Na época em que Mao fez seus primeiros contatos com os revolucionários da África, a China era um país muito mais pobre e fechado ao mercado do que é hoje – o dinheiro, além de ser mais curto, chegava aos africanos por meio de doações e verbas de ajuda humanitária. Hoje, os valores são empréstimos, que devem ser devolvidos em algum momento.

Para onde vai o dinheiro
Onde estão as maiores apostas dos chineses no continente africano.


 –
– (Estúdio Nono/Superinteressante)

É esse novo cenário que torna a China tão mais influente na região. Cada vez mais endividados, alguns governos de nações menores têm se tornado extremamente dependentes da boa vontade de Xi Jinping. Em Djiboti, um país de menos de 1 milhão de habitantes encravado entre Somália, Eritreia e Etiópia, a dívida externa saltou de 50% para 85% do PIB nos últimos dois anos, graças aos empréstimos chineses. A situação se repete pelo continente – a China já financiou mais de 3 mil projetos de infraestrutura na África desde a virada do século. Com seu sistema de partido único e pesada censura e perseguição a quem questiona o governo, a China também conta com uma “vantagem” em relação às democracias ocidentais: não precisa se preocupar com eventuais crises de relações públicas por ajudar governos que, com frequência, são também ditaduras. Assim, Xi Jinping pode passar por cima de críticas como aquelas que o governo brasileiro sofreu, por exemplo, ao emprestar dinheiro a países africanos por meio do BNDES.

Quando ainda era secretária de Estado no governo de Barack Obama, Hillary Clinton definiu o domínio da China na região como um “novo colonialismo”. Ela alertava que o boom econômico dos últimos anos poderia, no longo prazo, beneficiar apenas as elites africanas e criar Estados-fantoches. Apesar disso, na prática os investimentos chineses são mais diversificados que os dos norte-americanos. Dois terços das verbas vindas dos EUA ajudam a financiar projetos de mineração no continente, que são mais lucrativos, mas têm pouco efeito direto na vida da maioria da população – no caso da China, a proporção desse setor é menos de um terço e há foco maior na infraestrutura utilizada diariamente pelas pessoas.

O próximo passo de Jinping já está definido: nos próximos dez anos, a China pretende investir US$ 10 bi para construir um megaporto internacional em Bagamoyo, cidadezinha de pescadores na costa da Tanzânia. A ideia é repetir, na África, o que aconteceu com a cidade chinesa de Shenzhen que, após virar um hub portuário, tornou-se um polo tecnológico com mais de 20 milhões de pessoas. Se o projeto sair do papel, Bagamoyo será o maior porto africano, facilitando o comércio com a Ásia – e tornando os laços com a China ainda mais sólidos. No xadrez político do século 21, é Pequim quem desponta na hora de fazer aliados na África.

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O que foi o movimento pan-africano?
Ele ajudou a imaginar o continente como uma força em comum – e mobilizou a luta pela independência. Conheça alguns de seus maiores ícones.
Por Maurício Brum
access_time 10 jul 2019, 11h50 - Publicado em 8 jul 2019, 16h52
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 (Getty Images / Wikimedia Commons/Montagem sobre reprodução)

Em outubro de 1945, 90 representantes de diferentes partes do mundo se dirigiram a Manchester, na Inglaterra, para debater o futuro da África. Estava longe de ser a primeira vez que uma reunião na Europa discutia a vida do continente vizinho, mas, agora, os próprios africanos – ou seus descendentes nascidos em outras partes – é que tinham a palavra. Começava ali o 5º Congresso Pan-Africano.

Embora não costume ser muito recordada fora dos círculos de especialistas, essa seria uma das reuniões mais importantes do século 20, responsável por mudar (mais uma vez) os rumos de um continente inteiro.

Na cinzenta cidade industrial britânica, foram definidas e fortalecidas as ideias que levariam ao fim da era colonial: nas três décadas seguintes, inflamados pelas ideias pan-africanistas, movimentos contrários ao domínio europeu lutaram e conquistaram a independência em mais de 50 países da África e também do Caribe, cuja história era profundamente marcada pela escravidão.

Quando essas lideranças negras de dentro e de fora da África se encontraram no congresso de 1945, a 2ª Guerra mal havia terminado. A Alemanha foi derrotada em abril, e o Japão finalmente se rendeu em meados de agosto, após lutar de forma incansável e ser dobrado pelas bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki.

No front europeu, pela segunda vez em 30 anos, africanos saídos das colônias haviam sido convocados a lutar pela metrópole, em nome da nação que os dominava. E, assim como ocorrera na 1ª Guerra (1914-1918), os sobreviventes reencontraram um velho cenário após o último tiro de fuzil ser disparado: os africanos até podiam ter a mesma importância do que os brancos na hora de morrer lutando, mas, na vida cotidiana, seguiam sendo tratados como cidadãos de segunda classe.

As guerras eram um duro choque de realidade para quem nascia nas colônias. Não só os jovens eram alistados para defender uma nação que muitos consideravam opressora,, como chegando ao Exército, também era comum que fossem considerados inferiores aos soldados brancos.

Além do preconceito sentido na pele, os desentendimentos entre as potências europeias ainda deixavam legados palpáveis na rotina da África – mesmo que as brigas dos colonizadores pouco tivessem a ver com os problemas locais. Após a 1ª Guerra, por exemplo, grandes pedaços africanos que pertenciam à derrotada Alemanha passaram às mãos de países que venceram o conflito, como ocorreu com os protetorados germânicos de Camarões e do Togo, divididos entre franceses e britânicos já na metade do combate, em 1916.

Na reunião de Manchester, o objetivo era chamar a atenção para essa realidade – a África não queria mais ver, impotente, suas fronteiras e seus governos mudando pela vontade de potências distantes. Também queriam lembrar aos vencedores da guerra que, enquanto diziam lutar pela liberdade contra Hitler, eles próprios continuavam cerceando a autonomia de outros seres humanos não muito longe dali.

“África para os africanos, em casa e no exterior”, havia bradado o intelectual jamaicano Marcus Garvey, alguns anos antes. Agora, com o trauma da guerra ainda latente e as nações da Europa enfraquecidas e cheias de dívidas, era o momento ideal para virar a página do colonialismo e deixar que os africanos governassem a si mesmos.

Uma mesma força
Hoje, é fácil pensar na África como um conjunto de países que, por mais diferentes que sejam uns dos outros, guardam forte identificação entre si. Mas nem sempre foi assim. A ideia de nações e continentes que temos hoje é uma exportação europeia e, por muito tempo, o que prevaleceu em solo africano foram reinos relativamente autônomos, que não se viam em termos de mapas e fronteiras, mas a partir da língua, da religião ou da etnia – ora colaboravam entre si, ora guerreavam, escravizavam os rivais e até os vendiam para os europeus.

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As principais lideranças que ajudaram a redesenhar a história do continente africano.

O que hoje imaginamos como África começa a se formar fora dela. Primeiro, como uma visão exótica dos colonizadores sobre um continente misterioso, de interiores difíceis de explorar – eternizada em clássicos da literatura como O Coração das Trevas, de Joseph Conrad. Mais tarde, essa imagem passou a ser complementada pela nostalgia de africanos e descendentes levados à força para outras partes do mundo, que compartilharam sua cultura e suas memórias nas novas terras.

São os membros dessa diáspora que começam, no exterior, a se unir em torno de bandeiras em comum – inicialmente, o fim da escravidão. A partir do século 18, antigos escravos libertos que tiveram a oportunidade de estudar passam a integrar a linha de frente de movimentos intelectuais e políticos, como o Sons of Africa (“Filhos da África”, em inglês), de Londres, que passaram a pressionar por leis abolicionistas na Inglaterra e em suas colônias das Américas e do Caribe.

Quando a abolição ganha força e as últimas alforrias são concedidas no Novo Mundo, o embate passa a ser outro: isso porque, conforme o tráfico negreiro foi sendo extinto, a Europa tratou de dividir o continente vizinho na Conferência de Berlim, inaugurando um novo modo de lucrar ainda mais com a África. Agora, os descendentes de africanos tinham um adversário ainda mais poderoso pela frente: o colonialismo em seu próprio continente.

O pan-africanismo passou a bradar pela união política e social entre aqueles que descendiam de africanos, onde quer que estivessem, buscando pôr um fim à opressão europeia. Idealizado e difundido por intelectuais negros nas Américas, no Caribe e na própria África, o movimento começou a ganhar seus contornos no início do século 20. As correntes pan-africanistas se dividiam quanto à maneira de lutar pela autodeterminação do continente, mas partiam sempre de um mesmo princípio – o mais importante era a identificação com as terras ancestrais.

O jamaicano Marcus Garvey, por exemplo, foi um dos mais influentes intelectuais do movimento e nunca chegou a pisar na África. Outros, como W. E. B. Du Bois, nascido nos Estados Unidos e falecido em Gana, chegaram a fazer a viagem de retorno. Independentemente da geografia, suas ideias ressoaram por décadas, inspirando desde o norte-americano Malcolm X ao “Che Guevara africano”, Thomas Sankara, em lutas pelos direitos dos negros e pela independência das nações do continente.

Malcolm X (EUA, 1925 – 1965)
 –
– (Three Lions / Hulton Archive/Getty Images)

Ao lado de Luther King, Malcolm X foi um dos mais proeminentes líderes do movimento pelos direitos civis dos negros norte-americanos. Polêmico, era acusado de promover a violência contra os brancos. Entre suas ações, fundou a Organização pela União Afro-Americana, que buscava levar adiante as ideias pan-africanistas nos EUA. Foi assassinado aos 39 anos.

W.E.B. Du Bois (EUA, 1868 – 1963)
 –
– (Wikimedia Commons/Reprodução)

Primeiro negro a obter um doutorado em Harvard, Du Bois foi um dos principais intelectuais do movimento pan-africanista. Contrariando autores como Garvey, defendia a igualdade racial pela integração e não pelo “separatismo”: Du Bois entendia ser possível brancos e negros se desenvolverem em um mesmo país e não em nações separadas. Em 1909, fundou a NAACP (Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor), para dar suporte jurídico a negros em processos que ajudaram a acabar com as leis segregacionistas.

Henry Sylvester Williams (Trinidad e Tobago, 1869 – 1911)
 –
– (Wikimedia Commons/Reprodução)

Nascido em Trinidad e Tobago e formado nos EUA, foi na Inglaterra que fundou a Associação Africana, com o objetivo de combater o racismo e o imperialismo. Também se tornaria o primeiro negro a advogar na Colônia do Cabo, na atual África do Sul. Quase 20 anos antes do 10 Congresso Pan-Africano, organizou uma conferência sobre o tema em Londres.

Marcus Garvey (Jamaica, 1887 – 1940)
 –
– (Wikimedia Commons/Reprodução)

Um dos principais pensadores do pan-africanismo, Garvey defendia um “fundamentalismo africano” – a ideia de que os descendentes da diáspora negra, filhos e netos de antigos escravizados, deveriam se unir, não importando onde vivessem, para acabar com o colonialismo europeu. Suas ideias influenciaram movimentos como o Black Power, nos EUA, e o rastafári, na Jamaica.

Kwame Nkrumah (Gana, 1909 – 1972)
 –
– (Wikimedia Commons/Reprodução)

Prometendo melhorar as condições de vida dos mais pobres, Nkrumah foi eleito presidente de Gana em 1960, três anos após a independência do país. Suas ideias socialistas não caíram bem em parte da elite política ganesa e ele acabou deposto em 1966. Amigo de Ahmed Sékou Touré, viveu seus anos finais na Guiné, onde foi nomeado “copresidente” honorário.

Ahmed Sékou Touré (Guiné, 1922 – 1984)
 –
– (Wikimedia Commons/Reprodução)

Um dos líderes na conquista da independência diante da França em 1958, foi o primeiro presidente da Guiné, governando de forma ditatorial até morrer, em decorrência de um infarto. Também ajudou a financiar as guerrilhas que lutaram para encerrar o colonialismo português na vizinha Guiné-Bissau e no Cabo Verde.

Thomas Sankara (Burkina Faso, 1949 – 1987)
 –
– (Wikimedia Commons/Reprodução)

Com uma plataforma anti-imperialista, o jovem guerrilheiro, conhecido como o “Che Guevara africano”, liderou uma revolução popular que tomou o poder no Alto Volta em 1983, mudando o nome do país para Burkina Faso (“terra das pessoas íntegras”, na língua local). Nacionalizou terras e riquezas minerais e foi rapidamente combatido pelas classes altas e médias e setores conservadores do Exército. Em 1987, foi derrubado por um contragolpe e assassinado.

Percalços
No início, os Congressos Pan-Africanos foram sempre realizados fora da África – em parte para chamar atenção dos poderes coloniais, mas também porque boa parte dos pensadores vivia fora dali. A primeira, em 1919, aconteceu em Paris. Nas seguintes, Londres, Bruxelas e Nova York se juntaram à lista de sedes. Depois da quinta e mais importante reunião, a de 1945, a sexta conferência demoraria quase 30 anos: só ocorreu em 1974.

Mas, quando o novo congresso veio, enfim aconteceu em uma república africana independente – a Tanzânia. Era um reflexo de tudo o que havia mudado desde o último encontro. Naquelas três décadas, o domínio direto da Europa foi praticamente varrido por completo da África. E não era para menos: alguns dos líderes das revoltas haviam comparecido pessoalmente aos debates de Manchester. Estiveram lá, entre outros, Kwame Nkrumah, Jomo Kenyatta e Hastings Banda – que conduziram, respectivamente, Gana, Quênia e Malauí rumo às suas independências.

A partir dos anos 1960, conforme as antigas potências coloniais foram sendo afastadas da África, muitos líderes identificados com o pan-africanismo levaram suas bandeiras um pouco além: a luta contra o imperialismo passou a se mesclar com uma derrubada do modelo capitalista. Neste momento, a União Soviética entrou em cena, financiando governos e guerrilhas pelo continente – e os Estados Unidos não ficaram atrás, também tentando manter suas zonas de influência na região. Em poucos anos, muitos heróis da independência africana acabariam se tornando conhecidos, também, como brutais ditadores aliados a algum dos lados da Guerra Fria.

As ideias que levaram à independência ganham corpo na Organização pela Unidade Africana, fundada em 1963. Hoje chamada União Africana, ela segue funcionando na Etiópia para discutir e representar os interesses conjuntos do continente. Mas a utopia pan-africanista ainda tem um longo caminho para concretizar as ambições originais de uma plena autonomia da África: os europeus se retiraram oficialmente e as potências estrangeiras mudaram ao longo dos anos, mas o resto do mundo continuou com grandes interesses na região. Fosse pelas mãos dos soviéticos, norte-americanos ou, mais recentemente, dos chineses, a dependência econômica da África nunca chegou ao fim.

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História
A Era da Escravidão
Por André Schröder access_time29 mar 2019, 18h19 - Atualizado em 5 jul 2019, 14h21
Na primeira vez que viu o mar, Olaudah Equiano também avistou um navio negreiro ancorado à sua espera, na costa da Guiné, área ocidental da África. Nascido em 1745, em Eboe, no atual território da Nigéria, Olaudah tinha 11 anos quando foi raptado de casa para ser vendido como escravo. Não era o único: entre 1501 e 1870, mais de 12,5 milhões de pessoas foram arrancadas do continente africano para trabalhar forçadamente no outo lado do Oceano Atlântico. O comércio de escravos negros já exista muito antes dos europeus pisarem na América, mas foi a descoberta de novas terras que alçou o tráfico negreiro a um patamar inimaginável e transformou a África (e o mundo) para sempre.

Uma vez rendidos, homens, mulheres e crianças eram levados em marcha forçada até o litoral, onde eram embarcados nos navios negreiros. Equiano cruzou o Atlântico junto a negros originários de diferentes povos, amontoados e acorrentados no interior da embarcação. Temeu a figura do homem branco, que até então nem conhecia, sobretudo depois de ter sido açoitado por não comer, e viu companheiros serem castigados e mortos por traficantes.

Muitos deles tentaram pular no mar em busca de alívio com a própria morte. No século 16, a travessia podia levar meses, a depender das condições climáticas, mas, na metade do século seguinte, quando Olaudah esteve a bordo, a viagem durava ente 30 e 50 dias. Era comum que crianças viajassem no convés, um “benefício” concedido a Olaudah, que assim escapou das agruras dos porões.

Dos 12,5 milhões de negros embarcados na África, 20% não chegaram vivos ao destino, vítimas de disenteria, escorbuto, varíola, sífilis e sarampo, ou da brutalidade dos comandantes. Muitas vezes, os corpos dos mortos jaziam por dias junto dos vivos até serem lançados ao mar. Devido a graves infecções oculares, era comum o desembarque de escravos cegos.

Em terra firme, a situação do escravo não era muito melhor: a “vida útil” média de um africano nas plantações não passava de cinco anos e, aos 30 anos de idade, a maioria estava fisicamente arruinada.

A trajetória de Olaudah Equiano – o sequestro, a travessia transatlântica até Barbados e a longa década de escravidão encerrada com a compra da própria liberdade – está contada na autobiografa The Interesting Narrative of the Life of Olaudah Equiano, or Gustavus Vassa, The African (sem tradução para o português). Publicado em 1789, como parte do esforço abolicionista na Inglaterra, o livro retrata alguns dos horrores vividos pelos negros durante o auge da escravatura nas colônias americanas. Hoje, há até um esforço entre especialistas para usar o termo “escravizados” em vez de escravos, deixando claro que a escravidão foi uma condição imposta e não algo natural.

Raptado aos 11 anos, Olaudah Equiano ganhou o nome de Gustavus Vassa ao ser comprado por um oficial inglês.
Raptado aos 11 anos, Olaudah Equiano ganhou o nome de Gustavus Vassa ao ser comprado por um oficial inglês. (reprodução/Domínio Público)

Desde a Antiguidade, vários reinos anos africanos contavam com escravos, principalmente prisioneiros de guerras, mas também subjugados por dívidas, condenados por crimes ou miseráveis. A dimensão da escravidão nessas sociedades, entretanto, era limitada. Foram os árabes, durante a expansão pelo norte da África, a partir do século 7, que estimularam o tráfico de negros, com a abertura de rotas pelo Deserto do Saara, Mar Vermelho e Oceano Índico. No início, o interesse era por mulheres destinadas ao concubinato, mas logo o negócio esquentou em busca de homens para compor exércitos e trabalhar em lavouras e palácios do imenso império muçulmano. O controle desse comércio ficou nas mãos árabes por 800 anos, período no qual escravos africanos foram vendidos em diversas partes do mundo, inclusive na Europa.

Em 1433, graças a evoluções nas técnicas de navegação, os portugueses contornaram o Cabo Bojador, na costa do Saara, e avançaram pelo litoral africano até cidades ao Sul, abrindo uma nova rota comercial, paralela aos caminhos terrestres dominados pelos árabes. Diante da decepção com a falta de ouro no local, os portugueses voltaram as atenções para o tráfico de humanos para servirem de mão de obra nas plantações de cana. Nas décadas anteriores ao descobrimento da América, o país já praticava um comércio regular de troca de bens por escravos, tendo obtido inclusive o monopólio do negócio pelo Atlântico. Pela via portuguesa, o tráfico negreiro ganhou escala.

O súbito aumento de escravos em Portugal – em 1455, 10% da população de Lisboa era negra – provocou questionamentos sobre as práticas escravagistas, cruéis e distantes dos valores cristãos. Séculos antes, os árabes tinham lidado com o mesmo tipo de reprovação, um dilema superado com a elaboração de uma pseudoideologia de cunho religioso sobre a suposta inferioridade dos negros.

Na Europa, coube aos papas da época a absurda tarefa de tentar justificar a escravidão dos africanos. Em uma das bulas sobre o assunto, Nicolau 5o deu ao rei de Portugal permissão para invadir, buscar, capturar e subjugar os pagãos da África. Na visão dos pontífices, a escravização era justa perante Deus, porque preservava a vida dos escravos em um contexto de conflitos violentos. A autorização, na verdade, tinha o propósito de fortalecer o cristianismo diante do avanço muçulmano.

Em paralelo aos textos papais, corriam ainda teses fundamentadas em interpretações desvairadas de passagens bíblicas que tratam de uma suposta “maldição divina” dos africanos, ora apontados como descendentes de Caim, o assassino do próprio irmão, ora derivados de Cam, o flho amaldiçoado de Noé, que serviam a uma extensa gama de teorias racistas.

Mas a história da escravidão ganha seu capítulo mais dramático com a chegada dos europeus à América, em 1492, quando tem início o transporte maciço de africanos para o outo lado do Atlântico. A necessidade de mão de obra barata nas plantações aqueceu o comércio nos novos territórios. Com os altos preços, reinos da África adotaram o fornecimento de humanos como principal atividade econômica. Em troca, os chefes locais recebiam produtos variados, como tecidos, aguardente e tabaco. Outro bem valioso eram as armas, indispensáveis nas guerras travadas com objetivo de escravizar conterrâneos. Os conflitos abalaram as estruturas sociais do continente, que passou a conviver com a brutalidade desenfreada.

Brasil, maior porto de desembarque

A história oficial da escravidão nas Américas começa em 1502, quando uma frota de 30 navios liderada pelo espanhol Nicolas de Ovando chegou à Hispaniola, ilha que hoje abriga Haiti e República Dominicana, com 2.500 colonos dispostos a viver nas novas terras. Designado governador, Ovando organizou a indústria de cana-de-açúcar local e, diante do fracasso em contar com mão de obra indígena, solicitou aos reis da Espanha o início do tráfico.

Não há documentos precisos sobre a chegada dos primeiros escravizados ao Brasil, mas os desembarques oficiais tiveram início na década de 1530, também destinados à indústria da cana, que começava a despontar em algumas capitanias. Em 1583, o Brasil contava 14 mil escravos, um número que subiria constantemente até o auge do tráfico no País, entre 1800 e 1850, período em que 2,3 milhões de negros aportaram aqui.

O Brasil foi o país que mais recebeu escravos nas Américas. Quatro em cada dez negros que cruzaram o Atlântico até a segunda metade do século 19 tiveram como destino nosso país – um total de 4,8 milhões de africanos. As áreas fornecedoras mudaram ao longo dos tempos, mas a maior parte dos negros desembarcados por aqui eram de Angola e do Congo, seguidos dos escravizados em Moçambique e na região do Golfo de Benim, entre Gana e Nigéria.

O controle do tráfico, que nos primeiros tempos era português, também trocou de mãos e foi exercido por holandeses, franceses e depois britânicos. Na metade do século 18, época em que Olaudah Equiano conheceu o navio negreiro, a maior parte dos escravos tinha como destino as colônias britânicas. Na autobiografa, o ex-escravo conta que, ao chegar a Barbados, foi comprado por um oficial inglês e virou marinheiro. Foi nesse período que recebeu o apelido jocoso de Gustavus Vassa, nome de um rei sueco. Equiano ainda foi vendido mais duas vezes antes de comprar sua liberdade, em 1766, aos 21 anos. Livre, trabalhou como barbeiro em Londres, mas logo voltou ao mar como marujo contratado. Sua vida, porém, não se tornou menos dura, por causa dos preconceitos ainda hoje enfrentados por negros.

Quando a autobiografa de Equiano foi lançada, em 1789, a causa abolicionista estava em alta. Protestantes ofereciam argumentos religiosos, enquanto intelectuais do Iluminismo apresentavam razões humanistas. Havia também uma ideia de que as transformações causadas pela Revolução Industrial tornavam a escravidão um obstáculo para a formação de mercados consumidores.

Enquanto o debate nos círculos brancos avançava, negros nas colônias lutavam pela liberdade. Uma das revoltas foi o Quilombo dos Palmares, reduto de escravos fugitivos no interior de Alagoas e Pernambuco, que resistiu por quase um século até ser arrasado por tropas oficiais, em 1694. Outro caso foi a Revolta dos Malês, um levante de negros muçulmanos, oriundos especialmente do Sudão via Benim, que movimentou as ruas de Salvador em 1835. Em comparação com os demais escravos que chegaram aqui, os malês eram mais instruídos, muitas vezes alfabetizados em árabe, e carregavam um espírito rebelde. É considerada a mais importante revolta urbana de negros pela liberdade no Brasil. Mas o maior triunfo pela liberdade foi a Revolução Haitiana, iniciada em 1791 e que só terminou em 1804, com o fim da escravidão e a independência do Haiti do domínio francês.

A derrocada do tráfico negreiro começou em 1807, quando a Inglaterra aboliu o tráfico pelo Atlântico, medida seguida por França, Holanda e Espanha e depois pelos países latinos. O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, em 13 de maio de 1888, com a assinatura da Lei Áurea, quando a pressão internacional já era insustentável.

Fontes: Uma História de Suas Transformações, Paul Lovejoy; História da África e dos africanos, Paulo Fagundes Visentini; A manilha e o libambo. A escravidão na África de 1500 a 1700, Alberto da Costa e Silva; El colonialismo en la crisis del XIX español. Esclavitud y trabajo libre en Cuba, Roberto Mesa. Historia del tráfico de seres humanos de 1440 a 1870, Hugh Thomas; Los comienzos de la esclavitud en América, Conrado Habler / Antonio María Fabié; O Navio Negreiro, Marcus Rediker; A Escravidão no Brasil, Jaime Pinsky; Escravos e Traficantes no Império Português, Arlindo Manuel Caldeira.

Por dentro de um navio negreiro
Em porões de navios escuros, sujos e quentes, cerca de 12,5 milhões de africanos escravizados foram trazidos para a América.
-
(André Ducci/Superinteressante)

1. Revoltas

Muitos achavam que virariam comida ou seriam mortos de qualquer forma. Então se recusavam a comer ou se jogavam ao mar nas poucas horas em que podiam subir ao convés para se “exercitar”. Poucas rebeliões davam certo. Geralmente, os rebeldes eram lançados ao Atlântico.

2. Quem vinha

Os traficados eram, na maioria, meninos e jovens de 8 a 25 anos, mas isso mudou nos últimos anos do tráfico. “Tudo quanto se podia trazer foi trazido: o manco, o cego, o surdo, tudo; príncipes, chefes religiosos, mulheres com bebês e mulheres grávidas”, disse o ex-traficante Joseph Cliffer, em depoimento ao Parlamento Britânico, em 1840.

3. Tratamento

Um cativo morto era prejuízo na certa. Para prevenir isso, os membros da tripulação obrigavam os negros a dançar no convés para se exercitar, além de levarem cirurgiões a bordo a partir de 1750 – a preocupação, claro, era com o lucro e não com os escravos.

4. Bandeira

Autorizada por acordos com outras nações, na luta contra o tráfico, a Inglaterra seguia e vistoriava navios suspeitos em alto-mar. Como os Estados Unidos não permitiam essa vistoria, barcos negreiros de várias nações hasteavam a bandeira americana para passar por baixo do nariz dos ingleses.

5. Alimentação

Era composta principalmente de arroz, milho, feijão, carne seca e farinha de mandioca. Era servida em baldes onde dez homens tinham de comer juntos, o que provocava inúmeras brigas e infecções alimentares.

6. As condições

O chão em que ficavam era grotesco: coberto de sangue, suor e outros fluidos corporais. As necessidades eram feitas em baldes ou em cabines no convés. Mas nem sempre essas estratégias funcionavam. O cheiro de urina e fezes era sentido de longe por quem esperava no porto.

7. Higiene

Para a higiene bucal, os escravos faziam bochechos com vinagre. Para limpar o corpo, só podiam se enxaguar duas vezes durante toda a viagem. Muitos padeciam de graves infecções oculares e intestinais, e os que não morriam chegavam moribundos ou cegos.

8. Calor

“Houve um companheiro tão desesperado pela sede que tentou apanhar a faca do homem que nos trazia água. Suponho que foi jogado ao mar”, disse o escravo Mahommah Baquaqua. A água era parte das rações diárias, mas nunca supriam o mínimo para matar a sede no calor de 50 graus do porão.

9. Tamanho

Os maiores navios transportavam até 700 escravos, mas ficaram gradativamente menores para poder escapar da fiscalização após a abolição do tráfico pela Inglaterra. As embarcações dividiam homens de mulheres e os carregavam acorrentados e deitados lado a lado nos porões.

Radiografia do tráfico
Veja abaixo as principais rotas do tráfico transatlântico entre 1501 e 1866 e o destino da maioria dos escravizados (em milhões).


Brasil na liderança
Em números absolutos, recebemos cinco vezes mais escravizados do que as colônias espanholas.
-
(Estúdio Nono/Superinteressante)

Abolição nas Américas
O Haiti tomou a dianteira dos movimentos pela liberade, seguido pela Inglaterra. O Brasil seria o último a libertar escravizados
1793 – Haiti
1822 – República Dominicana
1823 – Chile
1824 – Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua, Costa Rica
1826 – Bolívia
1829 – México
1833 – Antígua e Barbuda, Bahamas, Barbados, Belize, Guiana, Jamaica, Montserrat, São Cristóvão e Nevis, Trinidad e Tobago
1842 – Paraguai e Uruguai
1848 – Guadalupe e Guiana Francesa
1851 – Colômbia, Equador e Panamá
1853 – Argentina
1854 – Venezuela
1855 – Peru
1863 – Curaçao e Suriname
1865 – Estados Unidos
1873 – Porto Rico
1886 – Cuba
1888 – Brasil
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REINOS DA ÁFRICA
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Artigo
Tem gente que se refere à África como se fosse um único país. Acontece que a África é um continente maior do que o nosso, a América do Sul. Reúne 54 países com riquezas culturais muito diversas. Alguns desses países já foram reinos ricos e poderosos. Se quiser conhecer um pouquinho dessa parte fascinante da história dos povos africanos, está na leitura certa!



Ilustração Mariana Massarani
Muitos séculos antes de os primeiros portugueses chegarem na África pelo oceano Atlântico, havia comerciantes africanos que atravessavam o deserto do Saara para levar seus produtos de um lugar a outro de seu continente, e até para a Europa e a Ásia. Eles vendiam diversos produtos, entre os quais os mais valiosos eram o sal e metais preciosos. Nessa época, a Idade Média, a África era conhecida na Europa como“terra do ouro”.

Um bom vendedor sabe que precisa ir a muitos lugares para buscar produtos e a muitos outros para apresentá-los, se quiser fazer boas vendas. Em outras palavras, um bom vendedor precisa fazer diferentes rotas de comércio. No passado não era diferente: os comerciantes africanos cruzavam o deserto do Saara com destinos variado sem caravanas que iam e vinham com muitas pessoas.

Uma das mais importantes e ativas rotas de comércio da África saía de Marraquexe, passava pelas minas de sal de Tagaza e chegava até o antigo reino de Gana. Havia outras rotas também importantes, como a que ia de Túnis à terra do povo hauçás, no norte da Nigéria atual. Além da longa e importante rota de Gao até a cidade do Cairo. Essas rotas centrais se dividiam em outros vários caminhos. Nos pontos de descanso das caravanas que cruzavam o deserto surgiram cidades e aldeias.



Mapa Nato Gomes
Ouro, sal e poder
O crescimento do comércio com as rotas pelo Saara trouxe muita riqueza para algumas localidades da África. E como onde há riqueza há poder, alguns reinos foram surgindo. Esses reinos eram favorecidos por terem acesso e controle dos bens mais valorizados no Norte do continente: o ouro e o sal. Os mais conhecidos entre esses reinos da África ocidental entre os séculos 10 e 14 são: Gana, Mali e Songai.



Nos reinos de Mali e Songai os soberanos (reis) se converteram à religião islâmica, fortalecendo ainda mais as ligações desta região com as rotas de longa distância comandadas por muçulmanos, que são os seguidores da religião islâmica.

A política dos Mansa (palavra que queria dizer ‘rei’ no Mali) atraiu mercadores, professores e profissionais de diferentes áreas para seu reino, tal era a riqueza local. Um dos mais famosos soberanos do reino do Mali foi Mansa Mussa, que ao realizar sua peregrinação, ou seja, seu longo caminho até Meca, cidade sagrada dos muçulmanos, entre os anos de 1324 e 1325, teria impressionado a todos com sua riqueza. No caminho, na cidade do Cairo, no Egito, Mansa Mussa teria presenteado tantas pessoas com ouro, que o valor desse metal, na época, se desvalorizou por mais de 10 anos. A fama de Mansa Mussa foi tão grande que, num mapa da África Ocidental, a figura desse soberano aparece com uma pepita de ouro na mão.




Mapa Nato Gomes
Arte, conhecimentos e técnicas
Além dos reinos de Gana, Mali e Songai, houve outros núcleos de poder na África ocidental, alguns em torno de cidades importantes como nas regiões hauçá e iorubá, que ficam hoje na Nigéria. Em Ifé, cidade sagrada dos iorubás, produziam-se, desde tempos muito antigos e com sofisticadas técnicas de escultura, as famosas cabeças de bronze que datam provavelmente dos séculos 13 e 15. Estas obras de arte, descobertas em 1938, impressionam até hoje todos que as veem pela qualidade do trabalho artístico.





Atlas Catalão, detalhe, 1375.
Fonte: Históriativa Net

A região iorubá era urbanizada, com núcleos de poder como a região de Oió, que chegou a exercer seu domínio sobre outras cidades da região, sendo por essa razão conhecida como um reino.

Os reinos da África ocidental também incluíam diversos povos de agricultores e mineradores que criavam as grandes riquezas controladas por reis e nobres. Estas pessoas, com técnica e talento, produziram objetos de arte, inventaram instrumentos, criaram tecnologias e sistemas de trabalho que contribuíram para o desenvolvimento da produção agrícola e da mineração não só em suas regiões como para o Brasil – quando homens e mulheres foram trazidos pelo tráfico de escravizados.



Reino do Congo
Na África centro-ocidental, entre os países que são hoje Angola, Congo e República Popular do Congo, desde o século 14 ficava o antigo reino do Congo. Nesse reino, moravam povos que viviam da atividade agrícola e também comercializavam diversos produtos com grupos de outras regiões. O território do reino era dividido em pequenos povoados e seus limites eram traçados pelas aldeias que pagavam impostos ao poder central, que estava nas mãos do Mani Congo, o soberano local.

A capital do reino era conhecida como Banza Congo e, na época, era tão grande como as capitais da Europa. Os portugueses quando chegaram pela primeira vez à região do reino do Congo, em 1483, ficaram espantados com o tamanho e o esplendor dessa cidade. As construções eram impressionantes, assim como a riqueza do interior das residências. Havia na cidade verdadeiros labirintos, só conhecidos por alguns, que levavam ao palácio, onde os aposentos reais tinham paredes decoradas com finíssimos tapetes e tecidos de ráfia.




Cabeça em bronze, arte yorubá.
Foto Sailko/Wikimedia Commons



Ferro sagrado
Na região do antigo reino do Congo e no norte de Angola atual, onde ficava o reino do Ndongo (Dongo), no qual governou a famosa rainha Nzinga (Ginga), no século 17, havia uma longa tradição com metalurgia, isto é, de trabalho com ferro.

Os ferreiros eram profissionais com muito prestígio e seu ofício era considerado sagrado. Nesses reinos, os instrumentos de trabalho, objetos rituais e artísticos eram fabricados com muito cuidado. Todo o conhecimento que envolvia essa atividade era passado de pai para filho.  Havia cerimônias secretas para a habilitação dos futuros ferreiros. Como em quase todas as sociedades africanas, o saber e o poder eram governados pela relação com o mundo dos espíritos e das divindades.

Além de fixar a jornada de trabalho de oito horas por dia, a Constituição de 1934 também deu ao trabalhador o direito de ter um descanso semanal e férias anuais remuneradas e de receber dinheiro (um espécie de indenização)quando é mandado embora do emprego sem motivo justo. Na política, houve um avanço importante: as mulheres conquistaram o direito de votar!

Reinos sem reis
O que chamamos de reinos africanos, para ficar mais fácil de entender, nem sempre tinha uma figura de rei como nós conhecemos. Eram como cidades ricas, desenvolvidas e poderosas que dominavam outras cidades e aldeias ao seu redor. Surgiram não apenas na África ocidental, mas também na África oriental, nas regiões próximas à costa do oceano Índico.

Um exemplo de reino na África oriental? O antigo reino do Zimbábue, no sul da África oriental! Como resquício desse reino, ficaram as majestosas ruínas de pedra conhecidas como Grande Zimbabué.Entre os séculos 13 e 15, extraía-se de lá ouro, cobre e ferro, que cruzavam o oceano Índico para serem comercializados.



Antes dos Europeus…
Como podemos observar, a história da África ao sul do deserto do Saara, antes do contato com os europeus pelo oceano Atlântico,está repleta de riquezas e expressões de poder. As sociedades da época criaram formas de governo que se assemelham aos reinos e impérios que conhecemos, bem como formaram exércitos de guerreiros e guerreiras – como as amazonas do Daomé. Mas, principalmente, produziram arte, conhecimentos e técnicas que se espalharam pelo mundo por meio da herança africana, que está na vida e na memória de seus descendentes e deve ser valorizada e preservada.



Mônica Lima,

Laboratório de Estudos Africanos,
Instituto de História,
Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Matéria publicada em 06.12.2018

COMENTÁRIOS
Anna Elise
Gostei de descobrir sobre a África!

Publicado em 5 de fevereiro de 2019 Responder

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HISTÓRIA GERAL


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Érica Turci*, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Ascenção do Imperialismo e lutas pela independência

Com o desenvolvimento industrial dos séculos XIX e XX, as potências mundiais iniciaram uma disputa acirrada por maiores mercados consumidores e fornecedores de matérias primas e, acima de tudo, buscaram regiões onde pudessem investir o capital excedente gerado pela crescente produção industrial. A esse processo dá-se o nome de Imperialismo.

Nesse contexto, os países europeus (principalmente Grã-Bretanha, França, Holanda, Bélgica e Alemanha) se digladiavam a fim de conquistar colônias pelo mundo a fora, principalmente na Ásia e na África. Como a Grã-Bretanha possuía a maior marinha e tinha sido o primeiro Estado a se industrializar, acabou saindo na frente, e se tornando a mais poderosa potência imperialista da época.

Em contrapartida, nesse novo contexto, Portugal, que já tinha possuído um grande império colonial, lutava para não perder suas antigas colônias.

A partilha da África

Desde o século XV, os principais interesses dos europeus na África eram o acesso a mão de obra escrava e a compra de alguns produtos, como o ouro e o marfim. Dessa forma, até o século XIX poucas regiões africanas tinham sido efetivamente colonizadas pelos europeus (principalmente portugueses e holandeses), que preferiram construir fortificações e feitorias no litoral, de onde negociavam com a população local.

Pouco se conhecia sobre a África. Mas, a partir do século XIX, o crescente interesse de exploradores e missionários por aquele continente, trouxe à tona as maravilhas do interior africano - terras infinitas, jazidas de minérios, pedras e metais preciosos -, despertando a cobiça dos industriais e dos governantes europeus. O rei Leopoldo II da Bélgica, por exemplo, financiou expedições à África e fundou, em 1876, a Associação Internacional Africana, ponto inicial para o processo de colonização belga.

Em 1885, o chanceler alemão, Bismarck, reuniu a Conferência de Berlim, a fim de dividir o território africano de forma amigável entre as potências industriais européias. Logicamente essa partilha foi feita pelos europeus e para os europeus, os povos africanos sequer foram notificados. A partir de então se intensificou a invasão, a conquista, a utilização da força armada, a exploração do território e do homem africano em favor dos interesses industriais.

Colonização

Independentemente de qual tenha sido a metrópole, a forma de colonizar empreendida pelos europeus foi praticamente igual em todas as colônias. Primeiramente buscavam alianças com as elites locais, oferecendo prestígio, riquezas, corrompendo o grupo dominante. Somente no caso de resistência é que partiam efetivamente a invasão armada. De qualquer forma, ou por “bem” ou por “mal”, os europeus passaram a determinar qual o regime político local poderia ser adotado e quais as atividades econômicas deveriam ser praticadas.

Um fator importante no processo de colonização foi a chegada de colonos europeus, que passaram a compor o aparato administrativo, o quadro de grandes comerciantes e senhores latifundiários. Dessa forma, o imperialismo também serviu ao propósito de diminuir a população residente na Europa (que havia crescido muito no século XIX).

A sociedade colonial foi se organizando a partir de traços culturais e étnicos: os brancos passaram a deter todo privilégio e os nativos foram submetidos: não podiam mais usar sua língua, não podiam mais realizar seus cultos religiosos, não podiam produzir segundo sua cultura agrícola milenar.

Em pleno século do desenvolvimento cientifico e tecnológico, os europeus legitimavam sua posição de classe dominante através das mais inventivas teorias racistas, amplamente divulgadas na época. Uma delas defendia que a chegada do europeu no território africano era uma benção para os povos locais, que assim sairiam de seu primitivismo e alcançariam o progresso, e por isso deveriam seguir cegamente os ditames dos dominadores.

“Deve-se lembrar ainda que as potências européias, intencionalmente ou não, semearam o ódio entre grupos étnicos que estavam sob seu domínio. Assim, em algumas colônias deram tratamento privilegiado a uma etnia em detrimento a outra (…) no contexto da estratégia que visava dividir para governar.” (Nelson Basic Olic)

Mas o próprio desenvolvimento das colônias trouxe consigo o questionamento desse modelo:

“A desarticulação da agricultura tradicional, a apropriação da terra (desconhecida na maioria das regiões), o aparecimento do trabalho assalariado e, sobretudo, a urbanização criaram condições para uma nova estratificação social: pequeno grupo de comerciantes e intermediários, agentes políticos e econômicos do poder colonial, plantadores ricos, elites letradas de tipo moderno, funcionários subalternos e proletariado agrícola ou industrial.” (Letícia Bicalho Canêdo)

Ou seja, dentro da própria estrutura colonial, uma camada social composta por africanos privilegiados, formada dentro dos padrões europeus (muitos cursando universidades na metrópole), foi se apercebendo da situação de colonizado e, por que desejavam ocupar os cargos públicos aos quais só os europeus tinham acesso, passaram a se organizar e lutar pela independência.

Decadência européia

A primeira metade do século XX marcou a decadência dos países europeus enquanto potências mundiais: a Primeira Guerra, a Crise de 29 e a Segunda Guerra levaram os europeus a crise econômica que acabou se alastrando por várias regiões e, principalmente a partir de 1945, as metrópoles não tinham mais condições financeiras para manter o custoso aparato militar em suas colônias.

Em 1945, também, foi lançada a Carta da Organização das Nações Unidas, que defendia, dentre outros pontos, o direito a liberdade e de autoderminação dos povos, marcando nitidamente o interesse dos Estados Unidos em liquidar de vez com o sistema colonial europeu.

E não podemos nos esquecer da Revolução Russa (1917) que, como primeira revolução socialista da história, disseminou pelo mundo os ideais marxistas e leninistas, ideais esses que chegaram aos ouvidos de muitos africanos como a única solução política, depois de anos de exploração colonial capitalista.

A descolonização

O processo de descolonização foi longo e dolorido em várias das antigas colônias. Se por um lado, como dito acima, as elites privilegiadas africanas se organizavam para obter a independência, por outro, essa mesma elite não atendia os interesses da grande maioria da sociedade, pois mal conhecia as comunidades agrícolas e as tradições populares. Dentro dessas comunidades africanas mais pobres surgiram milícias inspiradas no marxismo, que também desejavam a independência e a tomada do poder.

Dessa forma, dentro do próprio processo de independência, grupos africanos passaram a se enfrentar, numa guerra que, além de ser pela independência, também era uma guerra civil, entre a elite local e as milícias. Muitas vezes essas guerras eram incentivadas e patrocinadas pelos Estados Unidos e pela União Soviética, que estavam em pleno processo de Guerra Fria.

Além disso, a própria pluralidade étnica africana levou ao enfrentamento diferentes grupos étnicos durante e após as guerras de independência.

As lutas pela independência se iniciaram em 1956 (ano em que a Tunísia se tornou independente) e terminou em 1974, quando as colônias portuguesas receberam sua autonomia (depois da Revolução dos Cravos em Portugal).

Os problemas sociais, políticos e econômicos desses novos países africanos ainda hoje são graves: governos autoritários (tanto de direita quanto de esquerda), atuam de forma truculenta e mantém a exploração social; as antigas fronteiras territoriais impostas pelos europeus na Conferência de Berlim (1885) se mantêm quase inalteradas, gerando rivalidades entre os Estados, as tribos e as diversas etnias; o interesse econômico internacional pelas riquezas africanas acaba por incentivar as guerras civis e entre os países africanos; a intolerância mundial para com a cultura africana (ainda taxada como primitiva) faz que com poucos compreendem efetivamente a riqueza e a importância das tradições africanas; as ideologias racistas, que se impuseram pelos interesses europeus, ainda perduram na mentalidade ocidental, justificando a falta de atitude das organizações internacionais para socorrer esses novos Estados ainda em profunda crise. 

Bibliografia

CANEDO, Letícia B.. A descolonização da Ásia e da África. São Paulo: Unicamp, 1985.

CROUZET, Maurice. A época contemporânea. In: História Geral das Civilizações. São Paulo: Difusão, 1958

DUMAS, Veronique. África emancipada. In Revista História Viva. São Paulo: Duetto. Nº 83

HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos. O breve século XX. São Paulo: Cia. das Letras, 1994.

MESGRAVIS, Laima. A colonização da África e da Ásia. A expansão do imperialismo europeu no século XIX. São Paulo: Atual. 1994.

OLIC, Nelson Basic e CANEPA, Beatriz. Conflitos do mundo. Um panorama das guerras atuais. São Paulo: Moderna, 2009.

Dossiê especial da Revista História Viva: Norte da África em chamas. São Paulo: Duetto. Nº 91

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